O mercado imobiliário brasileiro fechou junho de 2026 com um sinal claro de aquecimento, mesmo em meio a um cenário de juros ainda elevados. Segundo o Índice FipeZAP, os preços médios de venda de imóveis residenciais subiram 0,45% no mês, um resultado que representa uma leve aceleração em relação a maio, quando a alta havia sido de 0,42%. O número também ficou acima da prévia da inflação ao consumidor medida pelo IPCA-15, que avançou 0,41% no período. O levantamento, que cobre 56 cidades brasileiras, entre elas 22 capitais, mostra que a valorização dos imóveis segue superando, ainda que por uma margem estreita, o ritmo de aumento dos preços na economia como um todo.
Chama atenção o comportamento distinto entre as tipologias de imóveis. As unidades com quatro dormitórios ou mais lideraram a alta mensal, com valorização de 0,75%, enquanto os apartamentos de três dormitórios registraram o menor avanço, de apenas 0,25%. Essa diferença reforça uma tendência observada nos últimos meses: imóveis compactos e de alto padrão têm se valorizado em ritmos diferentes, refletindo mudanças no perfil de demanda e na composição da oferta disponível em cada segmento do mercado.
Cidades com maior e menor valorização no país
Na comparação entre capitais, Manaus liderou o ranking de valorização mensal, com alta de 2,06%, seguida por Vitória (1,64%), Brasília (1,25%), Aracaju (1,14%) e Teresina (1,08%). Do lado oposto, apenas três capitais registraram queda nos preços em junho: Porto Alegre (-0,51%), Curitiba (-0,10%) e Fortaleza (-0,08%). O resultado mostra que, apesar da tendência geral de alta, o mercado imobiliário brasileiro segue extremamente heterogêneo, com dinâmicas próprias em cada região, influenciadas por fatores locais como oferta de lançamentos, renda média da população e ritmo de absorção dos estoques.
Em valores absolutos, o preço médio de venda residencial no conjunto das 56 cidades pesquisadas chegou a R$ 9.853 por metro quadrado em junho. Os imóveis de um dormitório apresentaram o maior valor médio, de R$ 12.054 por metro quadrado, enquanto as unidades de dois dormitórios tiveram o menor preço, de R$ 8.850 por metro quadrado. Entre as capitais mais caras do país, Vitória aparece na liderança, com R$ 15.210 por metro quadrado, seguida por Florianópolis, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. No acumulado do primeiro semestre, a valorização chegou a 2,42%, um patamar ainda abaixo da inflação acumulada no período, de 3,62%, o que indica que o ganho real dos proprietários segue moderado até aqui.
O contexto econômico por trás dos números
O panorama de 2026 é descrito por especialistas do setor como de “otimismo seletivo”, expressão usada no Radar da Construção, estudo conduzido pelo Ecossistema Sienge em parceria com CV CRM, Grupo OLX e Nomad. Segundo a análise, o primeiro semestre não trouxe uma expansão automática do mercado, mas exigiu das incorporadoras uma leitura mais precisa de dados para embasar decisões sobre onde e quando lançar novos empreendimentos. Esse cuidado se justifica pelo cenário macroeconômico: a taxa Selic tem sido projetada em patamares que variam entre 12,5% e 14% ao ano, conforme diferentes levantamentos, o que eleva o custo do crédito e torna mais caro qualquer erro de avaliação sobre localização e momento de lançamento.
A pressão sobre os custos de construção também tem sido desigual entre os insumos. De acordo com o Índice de Preço de Materiais de Construção, o fio de cobre acumulou alta de 30,72% em doze meses até maio de 2026, enquanto o cimento subiu 14,96%. Já o Índice Nacional de Custo da Construção apontou avanço de cerca de 9% nos custos de mão de obra, consolidando a folha de pagamento como o principal vetor de pressão sobre o setor no período. Apesar disso, as incorporadoras têm conseguido repassar parte desses custos aos lançamentos: o Índice de Lançamentos Imobiliário da DataZAP mostrou valorização média de 10,06% nos imóveis lançados, superando o próprio índice de custos da construção.
Fundos imobiliários resistem à Selic alta
O segmento de fundos imobiliários também tem mostrado resiliência em meio à volatilidade macroeconômica. Mesmo com a Selic projetada em torno de 14% ao ano, os FIIs de tijolo registram ocupação recorde em seus imóveis e distribuição de rendimentos acima de 10% ao ano em muitos casos, segundo análises recentes do setor. Ainda assim, as cotas desses fundos seguem sendo negociadas com desconto em relação ao valor patrimonial de seus ativos no mercado secundário, reflexo direto do ambiente de juros elevados, que torna outras aplicações de renda fixa mais competitivas frente aos ativos imobiliários. É importante lembrar que qualquer decisão de investimento deve considerar o perfil e os objetivos de cada investidor, sem que isso configure recomendação específica.
O que esperar para o restante do ano
Olhando para frente, o setor aposta em uma retomada gradual puxada pela expectativa de queda da Selic e pela manutenção do fôlego do programa Minha Casa, Minha Vida. Ao longo de 2025, foram lançadas 453.005 unidades residenciais no país, alta de 10,6% em relação a 2024, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. O mercado de imóveis usados também mostrou fôlego, com o Creci de São Paulo registrando crescimento de quase 12% nas vendas no estado. Projeções da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança indicam que o crédito imobiliário pode crescer cerca de 16% em 2026, com as operações financiadas pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo avançando por volta de 15%.
Cálculos do setor sugerem que cada ponto percentual de queda na Selic pode trazer aproximadamente 160 mil novas famílias ao mercado de financiamento imobiliário, ampliando de forma significativa o público apto a comprar um imóvel financiado. Diante desse cenário, o segmento econômico, sustentado em grande parte pelo Minha Casa, Minha Vida, tende a seguir como o mais resiliente, enquanto o médio padrão permanece mais sensível às oscilações da taxa de juros e do crédito bancário. Já o alto padrão segue como o segmento mais estável, mesmo com preços subindo acima da inflação em diversas praças do país.
Fontes consultadas:
- https://exame.com/mercado-imobiliario/imoveis-de-um-dormitorio-tem-maior-valorizacao-anual-no-brasil/
- https://exame.com/mercado-imobiliario/otimismo-seletivo-por-que-errar-ficou-muito-caro-para-as-incorporadoras/
- https://exame.com/mercado-imobiliario/fiis-de-tijolo-resistem-a-ano-dificil-mas-seguem-negociando-com-desconto/
- https://portas.com.br/dados-inteligencia/projecoes-cenarios/impacto-selic-2026/

