Inteligência artificial já é realidade para mais da metade das incorporadoras brasileiras

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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O uso de inteligência artificial no mercado imobiliário brasileiro deixou de ser uma promessa distante para se tornar prática corrente entre as grandes incorporadoras do país. Uma pesquisa inédita apresentada durante o Morada Summit 2026, realizado no Cubo Itaú, em São Paulo, e que reuniu cerca de 300 executivos, incorporadores, investidores e especialistas do setor, revelou que 56,5% das empresas imobiliárias já adotaram a tecnologia de alguma forma em suas operações. O levantamento foi conduzido pela proptech Morada.ai em parceria com a BCB Inteligência e a agência Upload, e reforça uma mudança de patamar no debate sobre o tema dentro das companhias do setor.

Segundo Ramon Azevedo, CEO da Morada.ai, a discussão entre as empresas já não gira mais em torno de decidir se vão adotar inteligência artificial, mas sim de como aplicar a tecnologia para gerar mais eficiência e melhores decisões de negócio. Entre as empresas que ainda não utilizam IA, as áreas de maior interesse para adoção futura são análise de crédito, apontada por 21,1% dos respondentes, seguida por projetos e engenharia, com 20%, e marketing comercial, com 18,4%. Entre as companhias que já investem na tecnologia, 37,1% pretendem ampliar os aportes ao longo de 2026, enquanto 35,8% devem manter o nível atual de investimento, sinalizando um ciclo de maturação gradual do tema dentro do setor.

Avaliação de imóveis e tours virtuais ganham espaço

Um dos usos mais consolidados da inteligência artificial no setor é a avaliação automatizada de imóveis. Ferramentas baseadas em machine learning processam grandes volumes de dados, como padrões de comportamento do consumidor, histórico de preços, localização geográfica, proximidade de infraestrutura e indicadores macroeconômicos, para gerar avaliações de imóveis em minutos, um processo que antes levava semanas quando feito manualmente por avaliadores. É o caso da proptech israelense Propdo, que chegou ao Brasil com um aporte de US$ 3 milhões e afirma alcançar precisão de 99,6% em suas previsões de preços de imóveis, combinando registros financeiros, dados de transporte e informações de planejamento urbano em sua plataforma.

Além da precificação, ferramentas de inteligência artificial também vêm sendo usadas como uma espécie de curadoria personalizada para compradores, analisando buscas anteriores e preferências declaradas para recomendar imóveis que combinem não apenas com o orçamento, mas também com o estilo de vida do cliente. Paralelamente, cresce a adoção de tours virtuais em realidade aumentada e de ferramentas de decoração virtual, que permitem ao comprador visualizar um imóvel vazio já mobiliado durante a visita digital. Esse tipo de recurso tem se mostrado especialmente útil para compradores de outras cidades ou investidores estrangeiros que avaliam empreendimentos brasileiros à distância, acelerando a tomada de decisão e elevando as taxas de conversão de vendas.

Ecossistema de proptechs cresce no Brasil

O avanço da inteligência artificial no setor acompanha a expansão de um ecossistema mais amplo de proptechs no país. Segundo mapeamento da BeansTech, o Brasil já conta com mais de mil startups ativas dedicadas à tecnologia aplicada ao mercado imobiliário, atuando em praticamente todas as etapas da cadeia, da concepção de projetos à gestão e ao financiamento de imóveis. Estimativas de mercado indicam que o setor de proptechs brasileiro movimentou cerca de US$ 866 milhões em 2025 e deve ultrapassar US$ 2,5 bilhões até 2034, um crescimento anual composto estimado em 12,55%. Esse avanço é impulsionado por ferramentas que reduzem o tempo das transações imobiliárias em até 30% a 50%, segundo análises do setor.

A automação também vem alcançando etapas mais específicas da cadeia imobiliária, como a triagem de imóveis em situação de pendência financeira, fiscal ou jurídica. A proptech Rooftop, por exemplo, relata ter reduzido de 60 para 16 dias o ciclo de análise e liberação de recursos para esse tipo de operação, um ganho de eficiência de cerca de 73%, ao automatizar a análise de documentos como certidões, matrículas e processos judiciais. Esse tipo de aplicação mostra como a inteligência artificial vem sendo incorporada não apenas às etapas de venda e marketing, mas também aos processos mais burocráticos e sensíveis do mercado imobiliário.

O próximo passo: da automação simples à inteligência artificial agêntica

Enquanto no Brasil o debate ainda avança em etapas, no cenário internacional a tecnologia já caminha para um estágio mais sofisticado, conhecido como inteligência artificial agêntica. Diferentemente de um chatbot que apenas responde perguntas, um agente de IA é capaz de planejar, decidir e executar uma sequência de ações de forma autônoma, sem depender de confirmação humana a cada etapa. No contexto imobiliário, isso pode significar qualificar automaticamente um lead recebido fora do horário comercial, consultar a disponibilidade de um imóvel no sistema da empresa, enviar uma proposta personalizada e agendar uma visita, tudo em poucos minutos e sem intervenção humana direta. Um relatório da consultoria McKinsey, divulgado em março de 2026, estima que a adoção de inteligência artificial agêntica pode desbloquear entre US$ 430 bilhões e US$ 550 bilhões em valor econômico no mercado imobiliário global, principalmente por meio da redução de custos operacionais.

Para o Brasil, especialistas do setor avaliam que ainda existe uma janela de vantagem competitiva para as empresas que decidirem investir em inteligência artificial e na unificação de seus dados nos próximos meses. A comparação frequentemente citada é com a adoção de sistemas de gestão de relacionamento com clientes ocorrida há cerca de dez anos, quando as incorporadoras que se anteciparam à tendência conquistaram vantagem sobre concorrentes que esperaram o mercado se consolidar. Diante de um setor historicamente mais lento na digitalização, o momento atual parece marcar uma virada real na forma como imóveis são avaliados, comercializados e geridos no país.

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